Portugal continua entre os países mais inativos da Europa. O que nos dizem os dados?
Fala-se muito sobre a importância do exercício físico para a saúde, mas os números mostram que, em Portugal, a prática regular continua longe de estar enraizada na rotina da maioria da população. Os dados disponíveis, quer a nível europeu quer nacional, apontam para a mesma conclusão: Portugal apresenta níveis de prática física baixos e um posicionamento desfavorável no contexto europeu.
O primeiro gráfico ilustra bem este enquadramento. Segundo o Eurobarómetro Especial 525, realizado em 2022, 73% dos portugueses responderam que nunca fazem exercício ou praticam desporto.
É o valor mais elevado entre os países da União Europeia e está muito acima da média da UE27, que se situa nos 45%. No mesmo levantamento, Portugal surge à frente de países como Grécia, Polónia, Roménia e Bulgária neste indicador de inatividade desportiva.
Este dado merece, no entanto, uma leitura metodológica rigorosa. Neste primeiro gráfico, o Eurobarómetro avalia a frequência com que as pessoas “fazem exercício ou praticam desporto” em contexto desportivo ou relacionado com desporto, como correr, nadar, treinar num ginásio ou num clube. Ou seja, trata-se de um indicador centrado em prática estruturada ou claramente reconhecida como exercício/desporto, e não em toda a atividade física do dia a dia.
É precisamente por isso que o segundo gráfico é tão relevante. Quando o inquérito alarga a análise para “outra atividade física” — como andar de bicicleta como meio de deslocação, jardinagem, dança ou outras atividades físicas recreativas fora do contexto desportivo — Portugal continua a apresentar um retrato frágil. Apenas 4% dos inquiridos em Portugal dizem fazer este tipo de atividade regularmente, enquanto 13% dizem fazê-lo com alguma regularidade; em contrapartida, 72% afirmam que nunca o fazem. Mesmo quando se vai além do exercício estruturado e se inclui movimento físico não desportivo, Portugal permanece entre os piores resultados da Europa.
Em termos práticos, os dois gráficos contam a mesma história por vias diferentes. O primeiro mostra que Portugal tem uma taxa muito elevada de pessoas que nunca praticam exercício ou desporto. O segundo mostra que essa lacuna não é compensada, de forma significativa, por atividade física não desportiva. Isto significa que o problema não se resume à falta de ida ao ginásio ou à ausência de prática desportiva formal. O problema é mais estrutural: grande parte da população portuguesa move-se pouco, de forma pouco consistente e insuficiente para construir uma rotina com impacto relevante na saúde.
Quando olhamos para os dados nacionais, o cenário mantém-se alinhado com esta leitura. O Inquérito Nacional de Saúde 2019, publicado pelo INE, indica que 65,6% da população com 15 ou mais anos não praticava exercício físico numa semana normal, enquanto 13,6% referia praticá-lo apenas em um ou dois dias por semana. Isso significa que a maioria da população portuguesa não tinha, à data do inquérito, uma rotina regular e estruturada de exercício.
A partir da desagregação apresentada em documentos técnicos baseados nesse mesmo inquérito, é possível estimar que cerca de 19% da população em Portugal praticava exercício físico pelo menos 3 vezes por semana. Esse valor resulta da soma das categorias 3–4 dias por semana (10%), 5–6 dias por semana (5%) e todos os dias (4%). Dito de outra forma, apenas cerca de 1 em cada 5 pessoas atinge esse patamar mínimo de frequência semanal.
Este ponto é particularmente importante porque existe uma diferença relevante entre fazer alguma atividade ocasionalmente e ter uma prática regular. Em saúde, os maiores benefícios não surgem apenas do contacto esporádico com o exercício, mas sim da sua repetição consistente ao longo do tempo. A Organização Mundial da Saúde recomenda, para adultos, 150 a 300 minutos semanais de atividade física moderada, ou 75 a 150 minutos de atividade vigorosa, além de trabalho de fortalecimento muscular em pelo menos 2 dias por semana. Embora a frequência “3 vezes por semana” não seja, por si só, garantia de cumprimento integral destas recomendações, ela está muito mais próxima de um padrão protetor e sustentável do que a inatividade ou a prática ocasional.
Do ponto de vista da saúde pública, estes números têm implicações profundas. Uma população que pratica pouco exercício e que também apresenta baixos níveis de atividade física geral tende a acumular mais fatores de risco associados a doença cardiovascular, excesso de peso, fragilidade funcional, pior saúde mental e menor qualidade de vida. A evidência científica tem sido consistente em mostrar que o movimento regular é um dos pilares mais relevantes da prevenção em saúde. Por isso, quando Portugal aparece sistematicamente mal posicionado nestes indicadores, o tema deixa de ser apenas desportivo e passa a ser claramente clínico, social e estratégico.
Para quem trabalha na área do exercício e da saúde, esta realidade deve ser lida também como uma oportunidade de intervenção. Os dados sugerem que o grande desafio não é apenas convencer pessoas já ativas a melhorar desempenho. O maior desafio está em ajudar a maioria da população a sair da inatividade, ultrapassar a prática esporádica e construir uma rotina realista, acompanhada e sustentável. Em muitos casos, o problema não é falta de informação; é falta de estrutura, contexto, orientação e continuidade.
No fundo, os dois gráficos apresentados neste artigo ajudam a perceber um ponto essencial: Portugal não está apenas abaixo da média europeia no exercício formal; está também abaixo em hábitos mais amplos de movimento físico. E isso reforça a necessidade de olhar para o exercício não como um luxo, nem como um comportamento reservado a atletas ou a pessoas muito motivadas, mas como uma competência básica de saúde que precisa de ser promovida, ensinada e integrada na vida quotidiana.
A mensagem final é simples, mas forte: Portugal continua entre os países mais inativos da Europa. E enquanto apenas uma minoria mantiver uma prática regular de exercício físico, continuará a existir uma margem enorme para melhorar indicadores de saúde, funcionalidade e bem-estar na população.
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